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Diálogos com Todos: Fernando Abrucio

Confira as perspectivas de Fernando Abrucio sobre a educação no debate das eleições deste ano e a prioridade à pauta na próxima gestão federal. 

Nesta edição do “Diálogos com Todos”, conversamos com Fernando Luiz Abrucio, doutor em Ciência Política pela USP, professor da FGV-Eaesp, coordenador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo (Ceapg) e membro do Conselho de Governança do Todos Pela Educação. Já fez consultorias em educação para governos brasileiros e no plano internacional, particularmente na América Latina e em Moçambique. Pesquisa temas educacionais há mais de trinta anos, em especial federalismo educacional, profissão docente, diretores escolares e modelos de governança em etapas e modalidades de ensino, como Primeira Infância, Educação Especial Inclusiva e Ensino Profissional e Tecnológico. Confira suas perspectivas sobre a educação no debate das eleições deste ano e a prioridade à pauta na próxima gestão federal. 

Diálogos com Todos é uma editoria das mídias sociais e site do Todos Pela Educação que fomenta conversas e expande olhares a partir de perspectivas de parceiros / especialistas / profissionais da educação sobre temáticas diversas em correlação com o nosso advocacy pela Educação Básica Pública.

1) A educação deverá ter algum protagonismo no debate das eleições 2026? Se não, deveria e por quê? 

A Educação poderá ter um papel central nas eleições de 2026 se a coalizão de atores sociais que a defendem for capaz de ressaltar os diversos temas educacionais que afligem os brasileiros. Se há 36,7 milhões de estudantes nas escolas públicas, quantos eleitores não podem ser alcançados pela questão educacional? O principal público-alvo são basicamente milhões de famílias mais vulneráveis em termos socioeconômicos e que se preocupam com temas que dizem respeito ao futuro de seus filhos, mas que se referem também à qualidade de vida no presente. É preciso juntar essas duas dimensões temporais. 

Entre as maiores preocupações dessas famílias, está, por exemplo, a inserção de seus filhos nas unidades educacionais de Primeira Infância – especialmente para mães-solo e/ou que precisam trabalhar o dia todo – e depois com sua alfabetização plena. Outro tema urgente é a dificuldade em lidar com o crescente número de crianças com deficiência que agora passam pelo processo de escolarização, processo que está afetando muito os lares do país, sobretudo (mas não só) nos grupos sociais mais carentes. Mais um ponto de grande relevância é como garantir a construção de um cenário profissional promissor aos jovens da periferia por meio do Ensino Médio, lembrando a angústia das famílias com a violência e as drogas. 

O horizonte que a escola pode oferecer aos filhos está ganhando cada vez mais atenção das famílias com menor renda e escolaridade. Em parte, porque o crescimento da escolaridade nas últimas décadas tem elevado a importância dada à educação em todos os estratos sociais. Mas há outro fator que deve ser mais explorado para mobilizar a sociedade: o crescimento das preocupações com problemas de comportamento e sociabilidade na vida dos adolescentes e jovens, como bullying, depressão e violência. Isso acontece tanto em famílias com estudantes em escolas públicas como em instituições privadas. A escola tem de ser valorizada como um lugar central na construção de valores que combatam os males que afligem os eleitores. 

Por isso, para atrair os eleitores à questão educacional, é preciso ter um discurso que alinhe duas coisas: a defesa da qualidade do ensino e a construção de valores positivos junto aos estudantes, que os ajudem no presente e no futuro. Essa é a mensagem com poderio eleitoral: os problemas e as aflições das famílias vão se reduzir se seus filhos estiverem aprendendo e se desenvolvendo como boas pessoas na escola.

 

2) Quais são os principais temas da educação que podem pautar as campanhas eleitorais nos estados?

Os principais temas devem juntar, de um lado, a preocupação com a qualidade da educação e o desenvolvimento de bons valores nas crianças e jovens, e, de outro, fazer com que a escola ajude nos problemas do presente das famílias.

Desse modo, questões como Educação Infantil, inserção inclusiva das crianças com deficiência, um Ensino Fundamental II que favoreça a sociabilidade dos adolescentes, um Ensino Médio que potencializa o projeto de vida – incluindo a profissionalidade – dos mais jovens são temáticas capazes de atrair a atenção de grande parcela do eleitorado. Por meio dessas preocupações, podem ser abordados temas estratégicos para que a educação funcione melhor. Por exemplo, mostrar para as famílias que a melhoria da profissão docente é o que viabiliza o aprendizado do filho, é o que garante um desenvolvimento socioemocional mais equilibrado, é o que gera perspectivas de vida que diminuem as chances de serem seduzidos pelo tráfico. 

 

Na mesma linha de combinar a preocupação das famílias com a solução de política pública, deve-se ressaltar que a luta para ampliar a escola de tempo integral, formato mais adequado para acolher e desenvolver múltiplos saberes, competências e valores, é tema com grande atratividade junto aos eleitores. Dizer que políticos que não tenham esse modelo como prioridade, que não tenham até agora feito nada por ele, não merecem o voto. 

Vale também ressaltar a perspectiva de gênero no discurso pró-educação. Mães estão muito engajadas numa infância bem cuidada, querem seus adolescentes com boa saúde mental e seus jovens se preparando para a vida adulta. Lutar por uma boa escola é lutar por esses objetivos maternos. 

É fundamental ainda que a escola seja apresentada como uma organização que deve trabalhar conjuntamente com outros serviços públicos para melhorar a vida das famílias e de seus filhos. O lema precisa ser que no seu bairro deve haver escolas e UBSs trabalhando juntos para que as crianças fiquem saudáveis, que nele as escolas atuem conjuntamente com equipamentos esportivos e culturais para os jovens se desenvolvam sem violência. Defender a educação junto aos eleitores, portanto, ganha mais sentido quando o viés intersetorial organiza o discurso político.

 

3) Quais são as diferenças essenciais entre os debates eleitorais nos âmbitos nacional e estadual, sobretudo quando se trata de educação?

No plano subnacional, os temas educacionais devem ganham maior materialidade. O governador tem de ser pressionado a melhorar sua rede e cada vez mais a apoiar os municípios. Mas como fazer isso ser um norte eleitoral importante., e não um discurso muito genérico? 

Perguntando aos candidatos o que eles têm a dizer sobre o acesso e qualidade das creches e da pré-escola, a expansão das escolas de tempo integral, a ampliação do ensino profissional e tecnológico. Esse questionamento deve ser alinhado com as preocupações das famílias: o que farão para melhorar o perfil profissional dos jovens? Como ajudarão as mães a terem suas crianças pequenas bem cuidadas? Que solução apresentaram à Educação Especial Inclusiva, num contexto de desespero das famílias em relação ao papel das escolas no cuidado e aprendizado das crianças com deficiências? 

Dar materialidade e centralidade às questões educacionais é a melhor maneira de aumentar o apelo eleitoral da educação no plano subnacional. Obviamente que, para além do plano individual dos eleitores, esse discurso terá mais força política se organizações da sociedade civil, como o Todos, apresentarem dados sobre cada estado e soluções de políticas públicas aos candidatos, à mídia e às redes sociais. 

Algumas temáticas mais gerais podem igualmente ser essenciais no debate presidencial, como a ampliação da escola de tempo integral, a valorização dos professores e o aumento do gasto do país com a Primeira Infância. Só que isso ganhará mais sentido se o presidenciável mostrar qual é o lugar da educação em seu projeto de nação, isto é, como o processo educacional pode reduzir desigualdades, melhorar a empregabilidade dos mais jovens, incorporar as crianças com deficiências à sociedade, cuidar dos filhos das mães mais pobres desde a Educação Infantil. Neste sentido, é muito importante cobrar os candidatos sobre a prioridade educacional por meio de uma proposta que apresente também quais soluções serão dadas. Em outras palavras, ideias que não tenham base em evidências ou experiências bem-sucedidas devem ser questionadas. Tão perigoso quanto não dar bola para a educação é defender terraplanismo educacional.

 

4) Quais medidas para a educação a próxima gestão federal deve priorizar nos primeiros 100 dias de mandato?

Há muitos temas importantes, mas o início de tudo é fazer um balanço do que foi feito nos últimos anos para ver o que deve ser continuado, o que deve ser aperfeiçoado e quais temas precisam de respostas que ainda não foram encontradas. Sem esse diagnóstico, o MEC tende a patinar por muito tempo, em vez de ser mais efetivo. 

Dito isso, o lema geral é que o Governo Federal deve gerar as condições para que os governos subnacionais implementem políticas educacionais que gerem maior qualidade, equidade e desenvolvimento pleno dos estudantes brasileiros. Esse papel de referência deve ser feito por medidas indutoras e coordenadoras dos entes federativos e da própria sociedade. Há muitas ações que podem gerar esse resultado, mas pensando nos primeiros cem dias, o melhor seria adotar três prioridades máximas: 

1 – Construir a engrenagem do novo Sistema Nacional de Educação (SNE), inclusive ajudando estados que tenham dificuldades para implementar suas bipartites. Essa será a governança educacional brasileira daqui para diante, e como mostra o exemplo da política colaborativa de alfabetização vigente, somente com formas cooperativas será possível melhorar a educação em larga escala, gerando tanto a disseminação de boas práticas como sua customização à realidade local.

 

2 – Montar um plano estratégico para as etapas e modalidades de ensino, de forma colaborativa com os governos subnacionais, dando maior prioridade às questões que ainda estão num estágio menos avançado, como a Primeira Infância, os Anos Finais e a expansão da possibilidade do Ensino Profissional e Tecnológico para todos os estudantes do Ensino Médio. 

 

Como prioridade máxima do MEC, ele deve atuar para o aperfeiçoamento em larga escala dos profissionais da educação, em especial os gestores educacionais, as lideranças escolares e, sobretudo, o professorado, a alma da educação. O Governo Federal deve ser o líder dessa que é a maior tarefa nacional da educação brasileira, pois o elemento humano é a variável mais importante na implementação de políticas públicas de qualidade.

 

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