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Diálogos com Todos: especial Professores

No mês dedicado à profissão docente conversamos com quem vive a educação no dia a dia das salas de aulas.

Diálogos com Todos é uma editoria das mídias sociais e site do Todos Pela Educação que fomenta conversas e expande olhares a partir de perspectivas de profissionais da educação, parceiros, especialistas, jornalistas e personalidades da mídia sobre temáticas diversas em correlação com o nosso advocacy pela Educação Básica Pública.

 

Esta é uma edição especial da série “Diálogos com Todos” – em vez de apenas uma pessoa convidada, temos três professores de escolas públicas brasileiras:

  • Fabiana Lira, professora alfabetizadora da Rede Pública Municipal do Recife (PE).
  • Patrícia Barreto, professora de Matemática da Rede Municipal de Candeias (BA).
  • Rodrigo Alves, professor da Rede Estadual de São Paulo e diretor da Rede Municipal de Embu-Guaçu.

 

 

No mês dedicado à profissão docente, para nós foi uma honra poder conversar com quem vive a educação no dia a dia das salas de aulas sobre os avanços vistos, perspectivas de futuro e prioridades que precisam ser consideradas nos próximos governos do ciclo 2027-2030.

 

Confira as entrevistas completas! 

 

1) Nestes anos atuando como professora / professor, o que você viu avançar na educação? O que destacaria como principal avanço?

PROFESSORA FABIANA: 

Ao longo da minha jornada na educação, percebo que temos avançado na construção de políticas públicas que colocam a alfabetização, a equidade e a aprendizagem no centro das discussões, e isso é de extrema importância na história da educação. É onde percebo que existe um movimento real e de valorização das avaliações diagnósticas e formativas que nos ajudam a compreender melhor o que as crianças já sabem e aquilo que ainda precisam aprender, nos permitindo refletir sobre o nosso planejamento, o qual, me serve como um termômetro para avaliar e refazer rotas sobre o que não deu certo na minha prática e o que precisa ser mudado.

Eu, como professora e formadora da rede municipal do Recife, tenho acompanhado de perto essa realidade, um avanço na compreensão de que alfabetizar vai muito além de ensinar a ler e escrever, mas garantir que todas as crianças tenham oportunidades de aprender, participar, pensar e se desenvolver dentro da sociedade onde está inserida.

Na minha opinião, o principal avanço é sobre esse olhar mais atento para a aprendizagem das crianças aliado às formações continuadas dos professores, o estar mais próximo da realidade do chão da sala de aula e de suas reais necessidades, o fortalecimento das políticas de alfabetização com esse olhar para o compromisso de alfabetizar na idade certa.

 

PROFESSORA PATRÍCIA: 

Um dos pontos de destaque para mim na educação nesses últimos anos foi o avanço do acesso e da permanência na escola. Ao longo desses 10 anos de docência, o mais desafiador como professora era lidar com o abandono e evasão escolar das crianças e adolescentes. Perdi muitos alunos para a necessidade de trabalho para a subsistência ou por não terem condições reais de se manterem na escola pois às vezes precisavam escolher sobreviver. Atribuo a essa mudança os programas sociais de incentivo à educação. A merenda escolar chega na escola, o fardamento das crianças, transporte, até material escolar fornecido pelas políticas públicas. Feito esse que na minha época como estudante de escola pública eu não tinha acesso. Eu por exemplo sou fruto dessas políticas públicas, pois graças ao Prouni cursei todo o meu curso de licenciatura em uma universidade particular e isso mudou tudo. Existe um longo caminho para se pensar na educação, o que envolve formação adequada, condições de trabalho mais dignas do professor, entender que um professor precisa ser pesquisador da sua prática, pois sem isso não há melhora e avanços.

Dar aula não é somente sobre entrar em uma sala e passar o conteúdo para os alunos. Mas sobre como fazemos com que o conhecimento seja ensinável! E isso exige muito esforço, pois cada turma é uma turma, cada criança está em um estágio de conhecimento, e precisamos estar em constante evolução para acompanhar essas demandas. E ser pesquisador da prática trabalhando 60 horas, além de todo o trabalho burocrático extra, torna isso impossível.

Outro ponto que quero destacar que considero importante é o programa Todos Pela Matemática. Há muito tempo a sociedade de Educadores de Matemática vem desenvolvendo pesquisas e evidências de que o ensino da Matemática nas escolas brasileiras precisa de um olhar mais direcionado e de políticas públicas que questionem o modelo de ensino posto. O programa por si só não é nem de longe suficiente para mudar o ensino da Matemática em nossas escolas, mas com certeza é um ponto de partida, um “start”, uma voz para que possamos entender que do jeito que está posto não está funcionando. Hoje, nós educadores temos um programa para chamar de nosso e com certeza potencial para transformar a Matemática do nosso país. Eu acredito muito no potencial desse programa se ele for bem conduzido.

 

PROFESSOR RODRIGO:

Percebi um avanço na estrutura física de boa parte das escolas estaduais de São Paulo, porém, por meio do excesso de plataformização e tecnologia sem planejamento estratégico, observo que esse avanço não tem impactado na aprendizagem e na convivência entre estudantes, professores, gestores, famílias e comunidade.

 

2) O que você mais espera que avance nos próximos anos para a educação?

PROFESSORA FABIANA: 

Para os próximos anos, espero que possamos conquistar mais avanços na valorização e no reconhecimento dos professores, não apenas no discurso, mas por meio de condições concretas de trabalho, formação continuada de qualidade, carreira e tempo para planejar, acompanhar e avaliar a aprendizagem dos estudantes.

Espero também que consigamos diminuir as desigualdades educacionais. Onde possamos garantir que uma criança da escola pública, independentemente do território onde vive, tenha acesso a uma educação de qualidade e às mesmas oportunidades de aprendizagem. Que de fato, a BNCC junto às políticas de rede, possam ser colocadas em prática na sua real totalidade, pois ainda vejo muita distorção entre uma prática e outra.

Acredito que precisamos avançar em uma educação que olhe para a criança de forma integral como na sua aprendizagem, suas emoções e relações, criatividade, autonomia e sua capacidade de participar da sociedade. Mas também o compromisso da família para com a escola e, principalmente, com as suas crianças.

Espero ver cada vez mais políticas públicas que cheguem à escola, dialoguem com quem está nela (nós, professores) e sejam acompanhadas por investimentos e ações que permitam sua continuidade. Uma vez que são efetivadas, que possam assim permanecer.

 

PROFESSORA PATRÍCIA: 

Eu sou apaixonada pela educação pública, esse é o lugar de onde vim e que gostaria muito de fazer a diferença! Sei exatamente o que uma educação pública de qualidade é capaz de fazer na vida das pessoas e mudar o rumo de uma vida. 

Acredito que precisamos avançar em muitos quesitos tais como formação de professores tanto na graduação quanto [na formação] continuada. Apesar do avanço significativo das pesquisa em educação Matemática e as evidências, ainda temos uma formação inicial de professores que não prepara o profissional para sala de aula. Muitos de nós, professores, enfrentamos a nossa sala reproduzindo modelos que vivenciamos na nossa educação básica. 

Outro ponto é a valorização e segurança financeira dos profissionais de educação. Como já disse, ser professor é muito mais que apresentar o conteúdo para a turma e tomar a lição, envolve pesquisa, planejamento, replanejamento e estudo. Um professor mal remunerado, que não tem o mínimo de segurança financeira não tem a possibilidade de se dedicar à educação como deveria e gostaria, pois muitas vezes precisa se submeter a escalas de trabalhos de 60 e 80 horas fora o trabalho extra, para conseguir sobreviver. Um professor exausto não tem como fazer pesquisa, fazer planejamento, pensar em avaliação. Ele tem apenas condições de cumprir demandas e muitas vezes nem isso. 

 

PROFESSOR RODRIGO:

É preciso resgatar a cultura de paz, projetos pedagógicos que promovam integração, convivência e aprendizagem com mais sentido, que antes valorizavam as relações humanas entre professores e estudantes, principalmente.

Resgatar o pouco de direitos e autonomia pedagógica que gestores e professores tinham. 

Retomar os direitos trabalhistas, sobretudo, com concurso público para professores, diretores de escola e supervisores de ensino, distanciando-se da relação de possíveis assédios morais em designações de gestores e combater o adoecimento mental de professores. 

Destaco também o investimento em formação acadêmica de gestores e professores, com bolsa mestrado e doutorado, como já tivemos em outros governos, qualificando esses profissionais.

Por fim, finalizo que são necessárias valorização salarial e evoluções acadêmicas.

 

3) O que acha que deve ser prioridade dos próximos governos para melhorar a educação? 

PROFESSORA FABIANA: 

Para mim, como prioridade na educação, eu diria que é garantir que toda criança aprenda, e que nenhum professor esteja sozinho, uma vez que a escola se faz com gente, precisamos desse apoio e suporte.

Para isso, creio que existem dimensões a serem estabelecidas: a aprendizagem dos estudantes, valorização dos professores e fortalecimento das políticas públicas.

Para garantir uma alfabetização de qualidade é necessário que exista o acompanhamento sistemático das aprendizagens, formação continuada, inclusão e equidade. Quando falo na inclusão, é a inclusão que começa no investimento do professor/profissional para que ele/a esteja capacitado/a para atender ao público de crianças neurodivergentes que tem chegado em sua sala de aula, uma inclusão que acontece no real e não apenas no “papel”. Apesar de sabermos que existem outros fatores que interferem diretamente na aprendizagem: a frequência escolar, a participação das famílias, as condições sociais dos estudantes, o acesso à cultura e à literatura e as condições de trabalho das escolas.

A educação melhora quando a responsabilidade pela aprendizagem deixa de estar apenas sobre os ombros do professor e passa a ser assumida como um compromisso coletivo entre escola, famílias, gestores e poder público.

Sendo assim, minha prioridade, pela minha visão de ótica, seria transformar políticas públicas em ações contínuas, como uma pauta necessária independente de governo que entra e que sai, mas de forma ampla e primordial presentes no cotidiano das escolas, garantindo condições para que professores ensinem e para que todas as crianças aprendam na idade certa.

 

PROFESSORA PATRÍCIA: 

Valorização dos profissionais de educação e investimentos em formação continuada. O conhecimento sempre será o principal fator de mudança de uma sociedade.

 

PROFESSOR RODRIGO:

A prioridade número um é dar um passo para trás com relação ao excesso de plataformização nas escolas. Além disso, qualificar os professores e gestores, bem como chamada de concurso público para distanciar-se da precarização de contratos de professores. Por fim, valorização salarial e investimento profundo na evolução acadêmica.

 

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Nesta edição conversamos com Elisa Veeck, jornalista, ganhadora do Troféu Mulher Imprensa 2017 – âncora de telejornal, atualmente é âncora na CNN Brasil.

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