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“Ficou nítida para a sociedade a complexidade do trabalho docente”, diz pesquisadora Paula Louzano em encontro do Todos Pela Educação

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Velhos conhecidos da comunidade educacional, desafios como falta de formação adequada para os professores, ausência de apoio psicológico nas escolas e falta de inovação nos métodos, para citar apenas alguns, ganharam visibilidade com a ampliação da crise da Covid-19, escancarando a profunda desigualdade que afeta os estudantes brasileiros.

ENTENDA: NA VOLTA ÀS AULAS, PROFESSORES DEVEM SER OUVIDOS

Impedir que essas distâncias se alarguem requer que os gestores públicos, sociedade civil e educadores aproveitem a conscientização sobre os desafios educacionais para tirar lições a respeito das políticas, encontrando soluções criativas e comprometidas com a equidade a longo prazo. Para debater esses tópicos e destacar possíveis respostas que possam deixar um legado para o ensino, o Todos Pela Educação reuniu quatro especialistas no painel “Políticas educacionais: transformações urgentes e possíveis legados” no 4º dia do encontro online “Educação Básica no novo cenário: adaptação e transformação”, que ocorreu entre os dias 22 e 26 de junho. (Veja abaixo destaques do debate)

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Veja os destaques das falas dos participantes:

  • Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos

“Imagina passarmos por essa pandemia sem um Sistema Único de Saúde (SUS). Poderíamos enfrentar essa crise na Educação de uma maneira muito melhor se houvesse um Sistema Nacional de Educação (SNE).”

 

  • Paula Louzano – Universidade Diego Portales (Chile)

“A crise deixou clara as desigualdades de oportunidades de nosso País e como elas clamam por um financiamento que leve em conta a equidade. É preciso entender que para dar igualdade de oportunidades é necessário haver um financiamento desigual, que priorize e entregue mais recursos às escolas que atendem alunos mais vulneráveis.”

“Ficou nítido para a sociedade a complexidade do trabalho docente, a centralidade da qualidade dos professores para termos uma Educação melhor. Temos, neste momento, a oportunidade de revalorizar a carreira.”

“Entre as mudanças que transformaram a Educação do Chile estão salário, carreira e formação dos professores. Na formação, exterminou-se qualquer tipo de prática a distância ou noturna, passando a entender a formação dos docentes como algo complexo, que exige período integral. Isso é caro. Para financiar, o Chile teve de fazer uma reforma tributária.”

 

“Falta enxergarmos a docência como profissão e não como bico, vocação, apenas gostar de crianças ou como um trabalho passageiro. Entender a docência como profissão e a complexidade que vem junto com essa definição.”

  • Alexsandro Santos – Faculdade do Educador  (Feduc)

“Fica cada vez mais evidente a baixíssima capacidade de coordenação educacional brasileira. O Brasil desenhou um federalismo, talvez único no mundo, com autonomia aos municípios, mas faltando um mecanismo forte de coordenação federativa. Assim, ficamos na dependência que haja alguém comprometido no Ministério da Educação. Não podemos ficar reféns disso, precisamos de um Sistema Nacional de Educação com dois vetores: colaboração vertical e indução de colaboração horizontal.”

“Nós precisamos trazer para o desenho institucional brasileiro uma concepção intersetorial de política social. Se continuarmos tratando a política educacional apartada das demais de saúde, assistência social, cultura e desenvolvimento territorial, a potência da política educacional para entregar aprendizagem vai continuar baixa.”

“Precisamos instalar no drive da gestão brasileira o princípio da equidade – em qualquer decisão ela tem de estar em jogo. Temos de criar um mecanismo que constranja o gestor público que não trabalha por esse valor.

“A gente precisa defender a democracia. Só dá para fazer as reformas educacionais que precisam ser feitas, se a democracia brasileira for defendida de ataques. Porque em um ambiente que não se preza pela democracia, não dá para fazer política educacional de qualidade. Não podemos tolerar que a nossa democracia continue sendo atacada por quem deveria defendê-la por dever constitucional.”

  • Paulo Blikstein  – Universidade de Columbia (EUA)

“Ter internet em todas as escolas deveria ser como ter luz elétrica ou água potável. É o básico e a responsabilidade de garantir isso é do poder público.”

“Esse é o momento de repensarmos o que queremos da tecnologia na Educação. Ela é uma ferramenta para empoderar o professor, para apoiar aulas mais interessantes, e não um mero meio de transmitir aulas expositivas ou fazer testes.”

“Estamos condenando os alunos da escola pública a terem uma escola menos interessante. Mas é exatamente a escola pública que temos que equipar, deixando sua infraestrutura melhor, para contrabalançar a desigualdade e falta de acesso aos meios tecnológicos.”

“Não podemos ter, na escola de hoje, o tipo de gasto que tínhamos há 50 anos. O mundo do século 21 é o do conhecimento e a escola é o lugar dele. Por isso, ela é intrinsecamente mais cara.”

“Nesse contexto da pandemia, precisamos ter cuidado com quem oferece soluções tecnológicas milagrosas para as redes de ensino. O legado que queremos não é esse, e sim mudar a formação para o que professor tenha mais instrumentos para ele transformar e adaptar a sua prática em sala de aula.”

  • Vikas Pota – Especialista internacional 

“Quando pensamos em líderes em Educação no mundo sempre nos referenciamos na instituição Todos Pela Educação.”

“Os pais estão começando a entender que os professores são grandes engenheiros da Pedagogia e esse é um dos aspectos positivos dessa crise.”

“Os professores estão passando por momentos difíceis diante da crise e precisamos nos preocupar com o bem-estar desses profissionais. Se o docente não estiver bem, esqueça, não haverá  bons resultados educacionais.”


CONFIRA OS DEMAIS DEBATES DO ENCONTRO

5° dia – O papel da educação na reconstrução do Brasil

3º dia – A importância de um novo Fundeb no contexto da pandemia

2º dia – Os desafios da gestão pública no presente e futuro

1º dia – O impacto da Covid-19 no Brasil e no mundo