Nesta edição do “Diálogos com Todos”, conversamos com Gabriela Lotta, professora e pesquisadora de Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas. Confira suas perspectivas e reflexões sobre a implementação de políticas educacionais no Brasil.
“Diálogos com Todos” é um espaço onde entrevistamos uma diversidade de parceiros, especialistas e profissionais da educação sobre temáticas conectadas ao nosso advocacy pela Educação Básica Pública.
1) Por que os estudos sobre implementação de políticas públicas são tão estratégicos para fazer avançar a Educação Básica Pública no Brasil?
Os estudos de implementação buscam compreender como as políticas públicas formuladas se transformam em práticas concretas, ou seja, como as ideias saem do papel e se materializam nos territórios, nas escolas e nas salas de aula. No campo da educação, isso é absolutamente central, pois é na implementação que as políticas educacionais efetivamente produzem — ou não — aprendizagem, inclusão e redução de desigualdades.
Estudar implementação de políticas educacionais significa, portanto, analisar como grandes marcos e políticas nacionais — como o Plano Nacional de Educação (PNE), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ou programas como o Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) — ganham vida em contextos concretos e conseguem (ou não) gerar coerência entre seus objetivos normativos e os resultados alcançados. A literatura internacional sobre implementação existe há mais de seis décadas, mas no Brasil esse campo é relativamente recente. Ainda assim, os estudos acumulados lá fora e aqui mostram que há enormes desafios para fazer com que boas ideias se convertam em bons resultados.
Esses desafios decorrem, em grande medida, da distância entre o universo da formulação e o da implementação. Quando as políticas chegam aos contextos reais — marcados por desigualdades, limitações de capacidade e especificidades territoriais — elas inevitavelmente sofrem adaptações. Essas transformações não são falhas da implementação, mas evidências de que as políticas precisam dialogar melhor com os contextos nos quais serão executadas.
Por isso, os estudos de implementação são estratégicos: eles permitem compreender como os contextos moldam as políticas, como os atores tomam decisões ao implementá-las, como as capacidades institucionais e individuais influenciam os resultados e como é possível desenhar políticas mais realistas, adaptativas e coerentes. Em última instância, estudar implementação é essencial para garantir que as ideias formuladas se traduzam em resultados efetivos de aprendizagem, inclusão e equidade.
2) Quais são os maiores desafios da implementação de políticas educacionais no contexto brasileiro?
O Brasil é um dos países mais diversos e desiguais do mundo, com profundas heterogeneidades e desigualdades territoriais, sociais, raciais e econômicas. Ao mesmo tempo, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu um forte compromisso com a universalização das políticas sociais, incluindo a educação, respeitando essa diversidade. Isso cria um desafio estrutural central: implementar políticas educacionais universais em contextos profundamente heterogêneos e desiguais.
Na prática, isso significa garantir acesso, permanência e aprendizagem para todas as crianças, mesmo quando elas partem de condições muito distintas de vulnerabilidade, infraestrutura, capacidades institucionais e capital social. Secretarias, redes e escolas operam em contextos muito diferentes entre si, com recursos e capacidades desiguais, o que afeta diretamente a forma como as políticas são implementadas.
Esse cenário exige arranjos institucionais complexos e desenhos de políticas capazes de combinar diretrizes comuns com flexibilidade contextual. O grande desafio da implementação no Brasil é justamente produzir coerência entre políticas nacionais e realidades locais, evitando tanto a padronização cega quanto a pulverização excessiva que comprometem a capacidade de gerar resultados e reduzir desigualdades. Para isso, é fundamental reconhecer que a implementação é um processo decisório contínuo, no qual os atores locais precisam fazer escolhas informadas diante de contextos complexos e, muitas vezes, adversos.
3) O que viabiliza ou quais são os princípios de uma boa implementação de políticas educacionais?
Uma boa implementação é aquela que consegue gerar resultados a partir dos contextos concretos nos quais as políticas operam. Isso implica reconhecer a centralidade do contexto e adotar algum grau de capacidade adaptativa, permitindo ajustes sem perder de vista os objetivos centrais da política. Ao mesmo tempo, a boa implementação não pode ser apenas reativa: ela precisa induzir práticas, comportamentos e decisões alinhadas (coerentes) aos resultados desejados.
Nesse sentido, a construção de capacidades é um princípio fundamental. Onde capacidades institucionais, organizacionais ou individuais são insuficientes, a política pública precisa atuar para desenvolvê-las. Isso envolve qualificar pessoas, fortalecer rotinas, aprimorar processos e criar condições para que os atores da implementação possam tomar boas decisões no cotidiano, coerentes com os resultados desejados.
A coerência é um elemento central da boa implementação. Coerência entre ideias e práticas, entre diferentes níveis de governo, entre instrumentos, atores e processos, e, sobretudo, entre os objetivos da política e os resultados produzidos. Essa coerência não surge automaticamente: ela é construída por meio de coordenação, comunicação, indução, escuta e aprendizado contínuo.
Além disso, a boa implementação precisa ser resiliente e sustentável ao longo do tempo, territorializada e capaz de sobreviver a mudanças institucionais e políticas. Para isso, o papel das pessoas é central. Implementar bem é, em grande medida, investir nos atores da implementação (como diretores, coordenadores pedagógicos, professores e até profissionais mais invisíveis, como os auxiliares, merendeiras etc.), garantindo que tenham competências, autonomia responsável, informações e recursos para agir como bons tomadores de decisão em contextos complexos.
4) Como é possível desenvolver capacidades – de secretarias à gestão escolar – para que a implementação de políticas seja otimizada e eficiente?
O desenvolvimento de capacidades começa com a formulação de políticas conectadas às realidades territoriais. Isso exige diagnóstico, diálogo e escuta ativa dos contextos de implementação. Políticas eficazes são aquelas formuladas a partir do reconhecimento das potencialidades, limites e necessidades dos territórios, das escolas e dos atores envolvidos.
Em seguida, é fundamental identificar quem são os atores da implementação e compreender quais decisões eles precisam tomar no cotidiano para que a política funcione. A implementação não acontece de forma automática: ela depende de decisões constantes tomadas por gestores, técnicos, diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Por isso, esses atores precisam não apenas estar engajados, mas também ter capacidades para decidir bem.
No entanto, é fundamental reconhecer que implementar políticas públicas é um trabalho intensivo, extenuante e emocionalmente demandante. Os atores da implementação lidam o tempo todo com imprevisibilidade, múltiplas demandas simultâneas, interação constante com diferentes públicos e a necessidade permanente de adaptar regras e orientações a situações concretas. Esse contexto gera uma sobrecarga decisória contínua, na qual gestores, diretores e professores precisam tomar decisões o tempo todo, muitas vezes sob pressão e com informações incompletas.
Diante desse cenário, é comum que decisões se tornem automatizadas como forma de aliviar a carga cognitiva e emocional da implementação. Esses automatismos são estratégias funcionais de sobrevivência organizacional, mas podem também produzir efeitos problemáticos, como reprodução de desigualdades, tratamentos padronizados e desumanizados, vieses implícitos ou distanciamento dos objetivos normativos da política. Por isso, desenvolver capacidades não é apenas treinar tecnicamente, mas também criar condições para interromper automatismos quando necessário e promover decisões mais reflexivas e conscientes.
Nesse sentido, é fundamental aliviar a carga de quem implementa, seja por meio de processos mais claros, protocolos para situações padronizadas, rotinas bem estruturadas, redução de tarefas redundantes ou melhor coordenação entre políticas e programas. Ao mesmo tempo, as secretarias precisam investir em políticas de sensibilização, reflexividade e aprendizado, criando espaços organizacionais para que os atores possam refletir sobre seus próprios comportamentos, interações e decisões no cotidiano da implementação.
Formação continuada, supervisão pedagógica qualificada, troca de experiências entre pares, momentos de reflexão coletiva e apoio institucional são estratégias centrais para fortalecer a capacidade decisória. Esses espaços permitem que os atores reconheçam dilemas, questionem práticas naturalizadas e realinhem suas ações aos valores e objetivos da política pública.
Em síntese, construir capacidades na implementação exige reconhecer que os atores são tomadores de decisão sob alta pressão. Desenvolver capacidades significa apoiá-los técnica, organizacional e emocionalmente para que possam tomar decisões melhores, mais justas e mais coerentes com os objetivos da política. É assim que a implementação deixa de ser apenas execução e passa a ser um processo estratégico capaz de gerar coerência entre ideias, práticas e resultados.
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